Nossa relação com o trabalho se ampara na lógica do esforço-recompensa. Em tempos remotos, “ir à caça” assegurou a sobrevivência e a evolução de nossa espécie, que na linha da história transcendeu as necessidades básicas, agregando novas motivações e sentido ao trabalho. Paradoxalmente, é sabido que em qualquer tempo essa relação umbilical se apresenta como um meio para danos, especialmente à saúde, o que se confirma pelo número aterrador de pessoas que adoecem no exercício profissional. Na contemporaneidade, por exemplo, é a deterioração da saúde mental, que tem sido assombrosa.
Em sua forma aparente, esse fenômeno se mostra coerente com o ingresso do pensamento tecnológico na cultura e com seu imperativo da performance. Afinal, fazer mais (em menos tempo e, de preferência, o tempo todo) se tornou atributo indispensável e termômetro de competência. O problema é que muitos de nós buscamos “seguir o marketing”, quando, na verdade, seria necessário sair do modo humano para satisfazer essa demanda.
É evidente que não existe uma barreira que separe os desafios do trabalho de nosso repertório emocional. Inexoravelmente, a bagagem que carregamos da cultura conta com a relevante participação de traços psíquicos pessoais, que estão implicados tanto na manifestação quanto no agravamento de casos de burnout. Entretanto, essa mercadológica nociva à estabilidade emocional não é um lugar sem horizontes. Ao contrário, ela carrega consigo uma oportunidade valiosa de examinar nossa relação com o trabalho em suas múltiplas faces e reformular a maneira como lidamos com ele. Para tanto, faz-se imprescindível que cada quadro seja abordado em sua singularidade, subjetividade e com amparo profissional.
Nessa perspectiva, conquistar ou recuperar a capacidade de trabalhar figura dentre os propósitos da psicanálise, que oferece um espaço de escuta e reflexão profundas favorável à construção de uma vida profissional saudável. Afinal, trabalhar é inerente ao ser humano, mas não precisa ser fonte de sofrimento. Romper com esse paradigma é possível. E, em alguns casos, se faz urgente.
